A Falência da Cultura Local
Ao longo da história, as maiores manifestações culturais do Brasil foram nascendo da própria força do povo. Não surgiram em escritórios de empresas de entretenimento, nem foram concebidas em grandes agências de marketing. Nasceram da tradição popular, da fé, dos costumes e da criatividade das comunidades que, geração após geração, mantiveram vivas suas identidades culturais.
Foi assim com os festejos juninos, que começaram ao som da sanfona, da zabumba e do triângulo, animados pelos trios pé de serra. Foi assim com as bandas de pife, os grupos de coco, maracatu, ciranda, cavalo-marinho, caboclinhos e tantas outras expressões que formam o patrimônio imaterial brasileiro. Foram esses artistas, muitas vezes anônimos, que construíram as bases culturais sobre as quais hoje se erguem os maiores eventos do país.
Os exemplos são evidentes. O São João de Caruaru e o de Campina Grande, reconhecidos nacionalmente como os maiores do mundo, tiveram origem em celebrações comunitárias. Os carnavais de Recife, Olinda e Salvador nasceram das manifestações populares que ocupavam ruas, praças e terreiros muito antes de se transformarem em grandes produtos turísticos. O mesmo ocorre com inúmeras festas religiosas, festivais folclóricos e celebrações tradicionais espalhadas pelo Brasil.
Entretanto, observa-se um fenômeno preocupante: a gradual substituição da cultura local pelo entretenimento comercializado.
Grande parte dessas festividades é promovida pelo poder público, que anualmente destina recursos significativos para fomentar a cultura e impulsionar o turismo. Em teoria, esses investimentos deveriam fortalecer a cadeia produtiva cultural local, valorizando os artistas da terra e preservando as tradições que deram origem aos eventos. Na prática, porém, o que se vê é uma realidade diferente.
Muitas prefeituras têm transferido a organização dos eventos para empresas especializadas na promoção de festas e espetáculos. Embora a profissionalização da gestão dos eventos não seja um problema em si, ela frequentemente vem acompanhada de uma consequência grave: a exclusão dos artistas locais.
Essas empresas costumam trabalhar com seus próprios catálogos de atrações, contratando artistas já vinculados aos seus interesses comerciais. Como resultado, músicos, grupos folclóricos e artistas populares da própria região acabam ficando de fora da programação. São artistas que carregam a memória cultural de suas comunidades, mas que muitas vezes não conseguem acessar os circuitos empresariais que passaram a controlar os palcos públicos.
O paradoxo é evidente. As festas continuam utilizando a identidade cultural local como principal elemento de divulgação turística, mas os próprios agentes responsáveis por construir essa identidade são deixados à margem.
Pior ainda: em muitos casos, as atrações contratadas não possuem maior relevância artística, cultural ou técnica do que os talentos existentes no próprio município. Frequentemente são artistas de realidades completamente distintas, sem qualquer ligação com a história ou a cultura local. Ainda assim, recebem espaço e recursos que poderiam estar contribuindo para o fortalecimento dos fazedores de cultura da região.
A consequência dessa prática vai muito além da perda de oportunidades profissionais. Trata-se de um processo de enfraquecimento da transmissão cultural entre gerações. Quando o jovem não vê o mestre da banda de pife sendo valorizado, quando o sanfoneiro local deixa de ocupar os palcos, quando o grupo tradicional perde espaço para atrações padronizadas, rompe-se uma cadeia de conhecimento que durante décadas foi passada de pai para filho, de avô para neto.
A cultura deixa de ser vivida para ser apenas consumida.
O poder público possui uma responsabilidade que vai além de promover grandes espetáculos. Sua missão constitucional e social inclui preservar, incentivar e valorizar o patrimônio cultural local. Não basta realizar uma festa grandiosa se aqueles que construíram sua identidade histórica permanecem invisíveis.
Valorizar os artistas da terra não significa rejeitar atrações de outras regiões. O intercâmbio cultural é saudável e enriquecedor. O problema surge quando o artista local deixa de ser protagonista para se tornar mero espectador de uma festa que nasceu de sua própria tradição.
A verdadeira política cultural deve equilibrar turismo, entretenimento e preservação da identidade. Deve garantir espaço para o novo sem abandonar suas raízes. Deve compreender que o sucesso de uma festa popular não está apenas na quantidade de público ou no volume de investimentos, mas na capacidade de manter viva a cultura que lhe deu origem.
Quando os artistas locais deixam de ocupar os palcos das próprias festas, não estamos apenas diante de uma falha administrativa. Estamos assistindo à lenta falência da cultura local.
E quando uma comunidade perde sua cultura, perde também parte de sua memória, de sua identidade e de sua própria história.
Neto Dantas
@netodantaspe
